A CONVERSINHA DO VOTO IMPRESSO

Por Moisés Mendes

Tem muita gente boa dando corda para a ideia de Bolsonaro em defesa da adoção do voto impresso. Os argumentos são ingênuos, quase colegiais.

O primeiro é este: se o voto impresso for adotado, tira-se de Bolsonaro o principal pretexto para um golpe, caso ele venha a ser derrotado, como será.

Outro argumento defende que o voto impresso pode ser adotado porque tecnicamente é viável e até razoável sob todos os pontos de vista, inclusive de custos.

São dois argumentos simplistas demais. Há um custo, um só, que o país não pode pagar. É o de se submeter às vontades e às ordens de Bolsonaro.

Um sujeito que o mundo passou a classificar como genocida, que sabotou o combate à pandemia, que mobilizou seus amigos para que ganhem dinheiro com vacinas e cloroquina e que conspira contra a ciência e a democracia todos os dias não pode impor nada a ninguém.

Não é a questão ‘técnica’ o que deve prevalecer em relação ao que o sujeito defende e ao projeto que o Congresso está examinando com a proposta de adoção do voto impresso como complemento ao voto eletrônico. É a questão política, estúpido.

Aceitar a tentativa de imposição de Bolsonaro, diante de uma maioria que não concorda com ele, é aceitar que o voto eletrônico pode estar sob suspeita. É negar a contribuição da urna eletrônica para a democracia.

Não sejamos tão incautos a ponto de relacionar uma série de argumentos para acabar concordando com Bolsonaro e a extrema direita e trazer de volta, com romantismo, uma batalha de Brizola. São outros tempos.

Acenar apoio à ideia do voto impresso, só para parecer mais democrata do que a média, é fazer o jogo dos que pretendem esculhambar com a eleição.

O que pode acontecer com o voto impresso é a potencialização dos argumentos pelo golpe. Bolsonaro perde a eleição e usa o próprio voto impresso para inventar fraudes, como Trump tentou fazer.

Mas tem muita gente esperta achando que o voto impresso tira finalmente o golpe da pauta de Bolsonaro de dos militares.

Talvez o sujeito nem queira um golpe, mas um grande tumulto que desvie as atenções e livre a família e o entorno que está no poder das sequelas de uma derrota.