RIR É UM ATO DE RESISTÊNCIA

O humor é uma arma poderosa na luta pela liberdade Imagem: Google

Por Mirian Goldenberg

Quando vi a frase “Rir é um ato de resistência” tatuada no braço de uma aluna, lembrei do livro “Em busca de sentido”. O psiquiatra Viktor Frankl escreveu que o humor é uma arma da alma na luta pela autopreservação, um recurso poderoso para a sobrevivência física e mental. Prisioneiro dos nazistas de 1942 a 1945, ele propôs a um amigo do campo de concentração um compromisso mútuo de inventar uma piada por dia com alguma situação engraçada que poderia acontecer após o fim da guerra, imaginando um futuro em que seriam libertados e voltariam para casa.

“Dificilmente haverá algo tão apto como o humor para criar distância e permitir que o indivíduo se coloque acima da situação. A vontade de humor —a tentativa de enxergar as coisas numa perspectiva engraçada— constitui um truque útil para a arte de viver.”

Perguntei: “Qual o significado da sua tatuagem?”.

“É uma forma de protesto contra os genocidas, para mostrar que meio milhão de mortes nunca serão esquecidas. A morte do Paulo Gustavo simbolizou a morte de todos brasileiros que poderiam estar vivos se esses criminosos tivessem comprado as vacinas na hora certa. Quantas vidas poderiam ter sido salvas se a vacinação e as recomendações da ciência não tivessem sido sabotadas?”

Além de culpados por milhares de mortes, “os psicopatas mataram a nossa esperança no futuro”.

“Somos um país sitiado, sufocado e dominado por monstros desumanos, com um povo cada vez mais triste, deprimido e desesperado. Os sádicos estão dando gargalhadas, sem máscara, gozando da nossa dor e desesperança. Eles mataram a nossa alegria de viver.”

A tatuagem é um manifesto contra “os negacionistas fanáticos que são cúmplices do genocídio e da destruição do país”.

“Decidi me tatuar quando ouvi o áudio do meu tio no grupo da família no WhatsApp: ‘Não aguento mais tanto chororô, frescura e mimimi. Você acha que só no Brasil morre gente por culpa do comunavírus? Só no Brasil falta vacina? Por que você não vai morar em Cuba, e leva junto todos os seus amigos comunistas, cagões e maricas?’”

Minha aluna marcou na pele a mensagem de amor e esperança que Paulo Gustavo deixou em um programa de televisão, no dia 22 de dezembro de 2020:

“Tanta coisa que eu queria dizer antes de ir embora, eu vou tentar, tá? Primeiro vamos combinar que esse ano serviu para mostrar que a gente não vive sem a graça, sem o humor. O humor salva, transforma, alivia, cura, traz esperança para a vida da gente. Eu fico muito feliz e orgulhoso de ser artista, e mais ainda da comédia ser tão forte em mim. Eu faço palhaçada, você ri, eu fico com o coração preenchido. Me sinto realizado de conseguir te fazer feliz.

Rir é um ato de resistência.

A gente agora está precisando dessa máscara chata para proteger o rosto desse vírus, e, infelizmente, a máscara esconde algo muito precioso para nós brasileiros: o sorriso. Ele está tampado, tem que ficar tampado, mas ele existe. E ele não vai deixar de existir, a gente não vai deixar de sorrir, não vai deixar de ter esperança.

Um Ano Novo vem aí, com novos desafios, mas com a promessa de a gente poder sair na rua de novo. Eu estou louco para voltar ao teatro, voltar a viajar o Brasil, encontrar vocês.

Enquanto isso não rola, vamos nos cuidar, cuidar da família, dos amigos, dos vizinhos, dos próximos, dos distantes, de todo mundo. Porque enquanto essa vacina tão esperada não chega para todo mundo, é bom lembrar que contra o preconceito, a intolerância, a mentira, a tristeza, já existe vacina: é o afeto, é o amor. Então diga o quanto você ama a quem você ama. Mas não fica só na declaração. Ame na prática, na ação. Amar é ação, amar é arte.

Muito amor, gente. Até logo”