CHUVAS TORNAM-SE CADA VEZ MAIS VARIÁVEIS À MEDIDA QUE O CLIMA GLOBAL AQUECE

Seca no Brasil é a pior em mais de 90 anos e tendência de extremos deve se repetir (AFP)

Os modelos climáticos preveem que a variabilidade da precipitação nas regiões úmidas globalmente será bastante aumentada pelo aquecimento global, causando grandes oscilações entre as condições secas e úmidas, de acordo com um estudo conjunto do Instituto de Física Atmosférica (IAP) da Academia Chinesa de Ciências (CAS) e o Met Office, o serviço meteorológico nacional do Reino Unido. Este estudo foi publicado na Science Advances.

A chuva desempenha um papel importante em nossa vida diária. Leva mais a inundações e menos à seca. Décadas antes, percebeu-se que o aquecimento global leva ao aumento das chuvas, em média. Como esse aumento é distribuído no tempo é muito importante. Um aumento de 2-3% na precipitação anual, espalhando-se uniformemente ao longo do ano, não significa muito, mas se cair em uma semana ou um dia, causará estragos.

Usando grandes conjuntos de simulações de modelos climáticos de última geração, este estudo destaca o aumento na variabilidade da precipitação em uma gama de escalas de tempo, de diária a multianual. Os cientistas descobriram que, em um mundo com aquecimento futuro, as regiões climatologicamente úmidas (incluindo os trópicos, as regiões das monções e latitudes médias a altas) não só ficarão mais úmidas em média, mas também oscilam amplamente entre as condições úmidas e secas.

“À medida que o clima aquece, as regiões climatologicamente úmidas geralmente ficam mais úmidas e as regiões secas ficam mais secas. Esse padrão global de mudança média de chuva é muitas vezes descrito como ‘molhado-fica-úmido’. Por analogia, o padrão global de variação da variabilidade da chuva apresenta um paradigma ‘molhe-obtenha-mais variável’. Além disso, o aumento médio global na variabilidade da precipitação é mais de duas vezes mais rápido do que o aumento na precipitação média em um sentido percentual”, disse Zhou Tianjun, autor correspondente do estudo e cientista sênior do IAP. Ele também é professor da Universidade da Academia Chinesa de Ciências.

O aumento da variabilidade da precipitação, em uma primeira ordem, é devido ao aumento do vapor de água no ar à medida que o clima esquenta; mas é parcialmente compensado pelo enfraquecimento da variabilidade da circulação. Este último domina os padrões regionais de mudança na variabilidade da precipitação.

Ao considerar as mudanças no estado médio e na variabilidade da precipitação, a pesquisa fornece uma nova perspectiva para interpretar os futuros regimes de mudança de precipitação. “Cerca de dois terços da terra enfrentarão um hidroclima ‘mais úmido e mais variável’, enquanto as regiões de terra restantes deverão se tornar ‘mais secas, porém mais variáveis’ ou ‘mais secas e menos variáveis’. Esta classificação de diferentes regimes de mudança de precipitação é valiosa para o planejamento de adaptação regional”, disse Zhang Wenxia, principal autor do estudo.

“A variabilidade da chuva globalmente ampliada manifesta o fato de que o aquecimento global está tornando nosso clima mais desigual – mais extremo em condições úmidas e secas, com transições mais amplas e provavelmente mais rápidas entre elas”, disse Kalli Furtado, cientista especialista do Met Office e segundo autor do estudo. “Os eventos de chuva mais variáveis podem ainda se traduzir em impactos sobre os rendimentos das colheitas e fluxos dos rios, desafiando a resiliência climática existente das infraestruturas, da sociedade humana e dos ecossistemas. Isso torna a adaptação às mudanças climáticas mais difícil.”

O estudo foi apoiado pela Fundação Nacional de Ciências Naturais da China, Fundação de Pós-Doutorado da China, Programa de Parceria Internacional da Academia Chinesa de Ciências e Fundo de Parceria para Inovação em Pesquisa Reino Unido-China, financiado pelo Fundo Newton do governo do Reino Unido.


EcoDebate/ Via Dom Total