ORQUESTRA PETROBRAS SINFÔNIA: FEIRA DE MANGAIO COM LUCY ALVES

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UMA ANÁLISE
ETNOLINGUÍSTICA DA MÚSICA
“FEIRA DE MANGAIO” DE
SIVUCA E GLORINHA GADÊLHA
Thalita Rose Tamiarana Gadelha Taveira1
Resumo: Neste artigo, busca-se um aprofundamento teórico da música Feira de Mangaio de Sivuca e Glorinha Gadêlha no que concerne às possibilidades de análise através da etnolinguística. Com o objetivo de
compreender as relações da etnolinguística e da cultura, a canção foi utilizada para que possamos observar
as particularidades regionais desta, bem como o maior conhecimento da música, da linguagem e do povo


nordestino ao qual ela faz referência. Serão abordadas diversas particularidades do povo nordestino, mais
especificamente do povo da Paraíba, já que tanto Sivuca quanto sua esposa Glorinha são paraibanos. Para
fundamentar este trabalho aplicam-se as contribuições teóricas de Coseriu (1982 e 1987), Lions (1981),
Mateus (2001), a fim de que se considere a referida obra como um importante arquivo socio-cultural do
povo nordestino.
Palavras-chave: Etnolinguística. Cultura. Linguagem.
UMA ANÁLISE ETNOLINGUÍSTICA DA MÚSICA “FEIRA DE MANGAIO” DE SIVUCA
E GLORINHA GADÊLHA
Abstract: n this article, we seek a theoretical deepening of the music Feira de Mangaio of Sivuca and Glorinha Gadêlha regarding the possibilities of analysis through ethnolinguistics. In order to understand the
relations of ethnolinguistics and culture, the song was used so that we can observe the regional particularities of it, as well as the greater knowledge of the music, the language and the people of the Northeast
to which it refers. Several peculiarities of the Northeastern people, more specifically of the people of
Paraíba, will be addressed, since both Sivuca and his wife Glorinha are from Paraíba. To substantiate this
work, the theoretical contributions of Coseriu (1982 and 1987), Lions (1981) and Mateus (2001) are applied in order to consider this work as an important sociocultural archive of the Northeastern people.
Keywords: Ethnolinguistics. Culture. Language.
1 Mestra em Letras pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB. E-mail: thalitartg@hotmail.com
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ISSN 2179-0027 Vol. 11 n. 2 (2020 ) 212
DOI 10.5935/2179-0027.20200033
INTRODUÇÃO
Severino Dias de Oliveira (1930
– 2006), mais conhecido como Sivuca,
nasceu em Itabaiana/ Paraíba, foi um multiinstrumentista, maestro, arranjador, compositor,
orquestrador e cantor brasileiro. Suas composições
giram em torno da música popular tipicamente
nordestina como o forró e o frevo. Entretanto,
devido as suas viagens aos Estados Unidos, Sivuca
compunha jazz e blues, dentre outros.
A ligação de Sivuca com a música iniciouse quando ele era ainda menino. Aos nove anos
Sivuca ganha sua primeira sanfona e aos quinze já
inicia seus trabalhos profissionais na Rádio Clube
de Pernambuco. Em 1951 grava seu primeiro disco
e em 1955 muda-se para o Rio de Janeiro, centro
de oportunidades referente as artes brasileiras na
época. Devido ao seu grande sucesso, morou em
lugares como Lisboa, Paris e Nova Iorque lançando
discos e propagando a cultura brasileira. Em 2006,
vítima de um câncer, Sivuca falece e deixa uma
filha, Flávia. O compositor tem atualmente trinta e
três discos gravados e esteve sempre ao lado de sua
esposa Glorinha Gadêlha, também compositora
e cantora, nascida em Sousa/ Paraíba em 1947.
Glorinha conseguiu concluir, ainda na Paraíba,
seu curso de medicina, mas foi na música que a
cantora se realizou. Sempre ao lado do marido
Sivuca, Glorinha compunha diversas canções,
dentre elas Feira de Mangaio e lançou sete discos
independentes dos de Sivuca.
A música Feira de Mangaio lançada na
década de 1970, foi gravada inicialmente pelo
próprio Sivuca e, posteriormente, incorporada ao
repertório de Clara Nunes – cantora brasileira,
considerada uma das maiores interpretes do país.
Neste período, o casal, Sivuca e Glorinha moravam
nos EUA. Feira de Mangaio, curiosamente, foi
concluída numa Mc Donald’s. Para tanto, Glorinha
esclarece “Essa música começou a sair de dentro
da minha alma no meio de uma aula de inglês. Aí
dentro do metrô ela continuou na minha cabeça,
foi crescendo. E quando cheguei no McDonald’s
terminei”.
Prova fiel do não esquecimento da cultura
nordestina mesmo tão distante da terra, a canção
Feira de Mangaio pode ser analisada através da
etnolinguística, apresentando aspectos particulares
do povo do nordeste e sua cultura, sacramentando
através de nordestinos como Sivuca e Glorinha
a resistência do nordeste e sua vasta diversidade
linguístico- cultural.
ETNOLINGUÍSTICA, LINGUAGEM
E CULTURA
Compreendida como estudo em relação
à civilização e cultura das comunidades falantes
(COSERIU, 1987), a etnolinguística é uma corrente
atual da linguística e se preocupa com o estudo das
diversas e possíveis variações da linguagem em
relação a uma determinada civilização e sua cultura.
Para tanto, pode-se observar, em linhas gerais, que
a etnolinguística, do latim etno, povo, preocupa-se
com os estudos voltados a língua de um povo e
suas diversificações, isto é, as particularidades da
linguagem de determinados grupos falantes de
uma mesma língua separados geograficamente, e,
portanto, detentores de costumes variados.
Desta forma um grupo restrito e sua
cultura podem ser interpretados por meio da
etnolinguística. Discursos diferentes que são
construídos por saberes relacionados a diferentes
estruturas sociais refletidos na fala de uma
determinada comunidades fazem parte dos estudos
da etnolinguística. Portanto, a etnolinguística para
Coseriu (1987) foi definida da seguinte maneira:
A etnolinguística é estudo da civilização e
da cultura refletidas nas línguas, quer dizer,
fundamentalmente da organização da cultura
material e intelectual (concepções ideologias)
manifestada no léxico (incluindo também
o “saber” relativo às relações sociais e à
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linguagem como parte da realidade cultural
organizada nas línguas mesmas). No mesmo
plano, mas no sentido diacrônico, é objeto da
etnolinguística o estudo da mudança linguística
em relação com as mudanças na civilização e
na cultura. (COSERIU, 1987, p. 30).
Trata-se, portanto, a etnolinguística, do
estudo dos saberes acerca das coisas enquanto
manifestadas pela linguagem, isto é, aspectos
culturais, costumes, manifestados através da
linguagem. Nesta perspectiva, podemos observar
que a linguagem é compreendida como um meio
de manifestação cultural, e portanto, constituída
como expressão intersubjetiva, isto é, diretamente
relacionada as diversidades culturais de um grupo
social.
A língua, enquanto motivada pelos “saberes”
(ideias, crenças, costumes, ideologias) registra
determinadas organizações lexicais determinantes
de experiências e conhecimentos de um povo.
Portanto, podemos observar as pluralidades de
questões que a língua apresenta de um grupo e sua
cultura (COSERIU, 1987, p. 47).
Para tanto, há uma grande dificuldade
em definir a palavra “cultura” já que a mesma é
tão abrangente e encontra-se atrelada a diversas
civilizações. Cultura, podemos observar, constitui
pluralidades relacionadas à arte, literatura, maneiras
e instituições sociais (LIONS, 1981, p. 273). Língua
e cultura estão intimamente relacionadas visto
que compreendemos aspectos culturais de um
determinado grupo em sua língua, assim, existem
várias possibilidades de codificação lexical para
uma única palavra.
Por isso, comunidades distintas apresentam
possibilidades de codificação também distintas
para um mesmo lexema. Daí a riqueza que a
linguagem apresenta: variedades linguísticas unidas
a variedades culturais. Então, classificamos as
diferenças lexicais e gramaticais entre as línguas
atribuídas também a diferenças culturais (LIONS,
1981, p. 282). Podemos avaliar certas diferenças
lexicais, ou ainda, lexemas particulares de uma
determinada comunidade dentro de uma mesma
língua também, já que a disposição geográfica
contribui, dentre outras questões, para as
particularidades linguísticas de uma comunidade.
Nesta mesma ótica, podemos avaliar segundo
Whorf que:
Cada língua é um vasto sistema diferente dos
outros no qual são ordenadas culturalmente as
formas e as categorias pelas quais as pessoas
não só comunicam como também analisam a
natureza e os tipos de relações e de fenômenos,
ordenam o seu raciocínio e constroem a sua
consciência. (WHORF op, cit MATEUS,
2001, p. 4).
Desta forma através da língua é possível
avaliar os aspectos culturais de uma comunidade
bem como a maneira pela qual elas se comunicam
e analisam variadas questões cotidianas. Assim, é
possível avaliar a relação estreita entre linguagem
e cultura visto que o comportamento de uma
determinada comunidade falante nos é apresentado
através da língua proferida por ela e, assim,
questões sociais, politicas, econômicas e culturais
transparecem por meio do contexto social inseridos
na linguagem.
Portanto, a língua contribui poderosamente
para que se reconheça a si próprio ou a outro sujeito
inserido em determinada cultura, e se apresenta
como um fator de identificação cultural, já que o
contexto em que o sujeito está inserido favorece
relações estreitas entre ele, o espaço geográfico, a
língua e, por conseguinte, sua cultura apresentada
através da língua (MATEUS, 2001, p. 20).
Devemos considerar, entretanto, que
para Coseriu (1982, p. 48), as palavras mudam
continuamente e, por isso, uma palavra nunca
é exatamente a mesma. Isso significa que com
o passar do tempo, determinado lexema pode
mudar de significado, ou ainda, adquirir novos
significados. Isto contribui para a riqueza linguística
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o que proporciona uma vasta gama de significados
lexicais nas mais variadas línguas.
Nesta perspectiva, partiremos para a análise
da música Feira de Mangaio e os significados dos
lexemas que abrangem aspectos culturais do povo
do Nordeste nesta canção. Para tanto é interessante
considerar que a região nordeste possui uma grande
diversidade cultural devido ao contato entre índios,
brancos e negros no período de colonização do
Brasil, bem como a posterior mistura entre essas
raças, o que proporcionou ao povo do nordeste as
primeiras ligações e trocas culturais no território
brasileiro.
FEIRA DE MANGAIO
Foi preferível analisar a música Feira de Mangaio
estrofe por estrofe, para que o entendimento dos
lexemas sejam mais precisos. Para tanto, observemos
os aspectos discutidos pelos teóricos anteriormente
citados e poderemos encontrar palavras-chave
que nos levam ao campo de cultura e tradição do
povo do nordeste. É interessante salientar que
os significados dos lexemas trabalhados foram
encontrados em dicionários, bem como em acessos
de sites específicos sobre a cultura nordestina ou
ainda, em conversas com nordestinos; pessoas que
vivenciam os aspectos culturais apresentados na
canção.
Feira de Mangaio (NAVARRO,2013. p.325),
conhecida também entre os pernambucanos
por Feira do Mangangá, é uma feira da região
nordeste que comercializa produtos artesanais
de grande variedade, desde produtos domésticos,
a agropecuária e fármacos, ou seja, uma feira
livre. Mangaio, por sua vez, é um instrumento
desenvolvido para carregar pequenos objetos,
produtos ou frutas.
O mangaio (MOZART, 2013) é constituído
essencialmente por uma vara, colocada por trás do
pescoço para que se possa carregar os produtos,
e dois cestos de cipó em cada extremidade que
receberá o produto a ser transportado pelo
mangaieiro, os profissionais do mangaio, ou seja,
uma espécie de camelô do Nordeste. Tanto as
feiras de mangaio em todo o nordeste, bem como
os comerciantes envolvidos com as feiras exercem
importante papel de preservação da história e da
cultura do povo nordestino que perpassa gerações.
Fumo de rolo, arreio de cangaia,
Eu vim pra vender, quem quer comprar?
Bolo de milho, broa e cocada,
Eu vim pra vender, quem quer comprar?
(SIVUCA, GADELHA, 1978)
Um dos produtos populares comercializados
nas feiras de mangaio é o fumo de rolo
(NAVARRO,2013.p. 344), um tipo de fumo
torcido utilizado para confeccionar cigarros de
palha ou ainda mascar pedaços deste fumo. Folhas
são enroladas em cordas e colocadas ao sol para
secar por mais de sessenta dias. O fumo de rolo é
ainda um produto essencial no comércio da feira
de mangaio e é de costume do povo nordestino
comprar e vender este tipo de fumo apenas em
feiras de mangaio. Portanto, não foram encontrados
registros da venda desse fumo em outros tipos de
comércio, exceto em casas específicas para venda
de fumo.
Para que possamos chegar à definição
de Arreio de cangaia é necessário primeiramente
compreendermos que a palavra “cangaia” vem de
“cangalha”. Informalmente, o povo do interior do
Nordeste, assim como em outras regiões do Norte
e do Sul do país, ou ainda nas periferias das grandes
cidades, é de costume mudar o morfema lha por
ia, ou seja, estamos de frente para um fenômeno
linguístico conhecido por yeísmo que consiste na
troca do lh pelo i (ABREU, 2013)
Estamos lidando com uma transformação
da língua, isto é, uma evolução linguística, que
no entendimento dos falantes facilita o processo
de comunicação. Para tanto, devido ao fenômeno,
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palavras como trabalho transformam-se em trabaio,
ou ainda telha, transforma-se em teia. Assim cangalha
transformou-se em cangaia na canção.
Cangalha pode ser classificado como uma
armação de madeira ou de ferro em que se sustenta
e equilibra a carga das bestas. Para tanto, no
Nordeste, também existe a pessoa cangalha, isto
é, aquela que tem as pernas arqueadas; o mesmo
formato dado as pernas das pessoas que montam
nas bestas. Portanto, arreio de cangaia é a estrutura
utilizada entre o povo do Nordeste para vestir
mulas que sustentarão cargas.
O bolo de milho (MARCENA, 2012.p.227) é
um prato tipicamente nordestino feito basicamente
de milho e muito consumido no período de festas
juninas que acontece em junho, sendo um dos pratos
fundamentais nesta época festiva. Entretanto, em
todo o nordeste é possível encontrar bolos de milho
em delicatessens ou ainda produzidos pelos próprios
nordestinos em suas casas nos outros meses do
ano visto que este bolo encontra-se fortemente
presente na cultura do povo no nordeste.
Outra comida tradicional no nordeste
feita de milho é a broa (MARCENA, 2012.p.64).
Também produzida no sudeste brasileiro, a broa
é uma espécie de pão de milho. O termo broa é
uma adaptação “abrasileirada” de bread, em inglês,
pão. A broa foi bastante difundida no período de
exploração de riquezas minerais em Minas Gerais,
sendo, portanto, um pão de milho que garantia
parte da sustança dos bandeirantes. No nordeste,
pelo fato de ter como matéria-prima o milho, a
broa é muito aceita em todas as regiões e costuma
vir acompanhada de uma xícara de café.
Cocada (MARCENA, 2012.p.101) é um
doce tradicional em várias partes do mundo. De
origem africana, a cocada chegou ao Brasil ainda
no período de colonização através das escravas que
faziam bom uso de seus dotes culinários adaptando
seus conhecimentos aos produtos encontrados
em abundância no Brasil. A cocada no Brasil
provavelmente foi feita inicialmente em Salvador,
fonte das origens da maioria dos pratos feitos
de coco em terras brasileiras, e posteriormente,
produzidas nos outros estados do nordeste.
Dando sequência a análise etnolinguística da
música proposta, observemos a segunda estrofe:
Pé de moleque, alecrim, canela
Moleque sai daqui me deixa trabalhar
E Zé saiu correndo pra feira de pássaros
E foi passo-voando pra todo lugar
(SIVUCA, GADELHA, 1978)
O pé de moleque (CAMELO,2014. p.211) foi
levado para a Europa pelos árabes ainda na idade
média e posteriormente trazido pelos europeus para
o Brasil. Um doce feito basicamente de amendoim
torrado e açúcar, o pé de moleque tem duas possíveis
explicações para seu nome: a primeira é de que o
nome do doce seja uma referência aos pés dos
meninos negros que corriam descalços no período
de colonização brasileira. Outra possibilidade é a de
que as cozinheiras que preparavam o doce diziam
às crianças que pedir os doces na cozinha “Pede,
Moleque!”. São duas possíveis origens bastante
interessantes para o nome do doce.
Há ainda a produção do bolo de pé de
moleque, também feito à base de amendoim. Em
Pernambuco ainda há outra variação: o manuê
(MARCENA,2012. p.217). Chamado por alguns
como pé de moleque, o manuê é uma comida
tipicamente pernambucana feita a base de farinha
de mandioca e um toque de erva doce. Tanto a
textura quanto o formado do manuê é diferente do
pé de moleque das demais regiões. É provável que
o pé de moleque pernambucano coberto, de folhas
de bananeira e encontrado facilmente no centro da
cidade do Recife, tenha sido dado pela semelhança
do prato típico com um pé. Entretanto, os mais
antigos ainda preferem chamá-lo de manuê.
Dando sequência aos lexemas tanto o alecrim
(MARCENA,2012. p.23) quanto a canela (2012.p.83)
são especiarias trazidas pelos colonizadores e
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utilizadas tanto na culinária quanto na medicina. O
alecrim na culinária para preparação de carnes e na
medicina no combate a febres. Já a canela é utilizada
na culinária para biscoitos e doces e na medicina
no combate ao açúcar no sangue e a hipertensão.
Tanto o alecrim quanto a canela são especiarias
encontradas em qualquer feira de mangaio, daí a
citação delas na música.
A Feira dos pássaros citada na canção é uma feira
costumeira do povo do nordeste. Principalmente
no interior dos estados é fácil encontrar perto de
feiras de mangaio ou de mercados públicos feiras
específicas para venda de pássaros. Contudo,
esta prática vem sendo combatida pelo IBAMA
(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis) a fim de reduzir o
tráfico de animais no Brasil.
No verso seguinte, Sivuca e Glorinha
utilizam o lexema composto passo-voando, que quer
dizer “pássaro voando”. Estamos frente a mais um
fenômeno linguístico: o metaplasmo por supressão
de sons que consiste em suprimir o som do começo,
meio ou fim de determinadas palavras.
Passo-voando na verdade é “pássaro voando”;
o fim da palavra “pássaro” foi suprimido e escrito
da mesma forma como é pronunciado por diversos
falantes nordestinos. Os compositores da música
Feira de Mangaio encontraram neste verso uma
maneira bem criativa tanto para encaixar as palavras
do verso na melodia da música quanto, ao mesmo
tempo, conseguiram apresentar mais um fenômeno
linguístico costumeiro do nordeste.
Tinha uma vendinha no canto da rua, onde o
mangaieiro ia se animar
Tomar uma bicada com lambú assado, e olhar
pra Maria do Joá
Tinha uma vendinha no canto da rua, onde o
mangaieiro ia se animar
Tomar uma bicada com lambú assado, e olhar
pra Maria do Joá
(SIVUCA, GADELHA, 1978)
Vendinha é o diminutivo de venda, um
pequeno armazém, uma mercearia. No nordeste
é costumeiro o emprego de diminutivos em
substantivos e adjetivos no sentido de manifestação
de carinho. Assim, é de costume dos nordestinos
oferecer cafezinhos, suquinhos, docinhos e afins.
A palavra mangaieiro já foi por nós analisada neste
artigo.
Em sequência bicada (CAMELO,2013.p.51)
que quer dizer “embreagado, bêbado”. Então, tomar
uma bicada significa dizer que o mangaieiro ia se
embreagar perto da feira do mangaio e lá comeria
um lambú assado: uma espécie de ave chamada em
outras regiões do país por “nhambu”,”inambu” ou
“inhambu”. Em Pernambuco ainda é do costume
de todos chamar uma mulher feia, desproporcional,
de “lambu”. A música ainda acrescenta que o
mangaieiro, bêbado, ainda olhava para a esposa
de outro mangaieiro, a Maria do Joá. A preposição
“do” na canção dá então, no trecho, ideia de posse.
Cabresto de cavalo e rabichola
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Farinha, rapadura e graviola
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
(SIVUCA, GADELHA, 1978)
Em sequência, Sivuca e Glorinha seguem o
mesmo princípio das duas primeiras estrofes da
música, isto é, apresentam utensílios e alimentos
encontrados em feiras de mangaio. Para tanto,
cabresto de cavalo vem em sequência e é o nome
dado a corda colocada na cara do cavalo utilizada
para guia-lo. Rabichola (CAMELO,2013. p.230)
também é um produto vendido em feiras de
mangaio e também pertence a gama de produtos
agropecuários. É o acessório utilizado para segurar
a cangalha em animais de carga. A rabichola fica
atrelada a uma corda e é colocada atrás do animal,
perto do anûs, para garantir que a carga fique bem
segura.
Farinha (MARCENA,2012. p.141) é outro
produto muito vendido em feiras de mangaio e
bastante utilizado em alimentos pelos nordestinos.
É geralmente obtido por cereais moídos como o
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trigo ou ainda por raízes ricas em amido, como
a mandioca. Rapadura (2012.p.294) é um doce
nordestino muito tradicional. Referenciada como
principal doce consumido no Ceará, a rapadura é
produzida a partir da raspa de camadas de açúcar
que ficava presa nos tachos utilizados na fabricação
do açúcar previamente aquecido. Por último a
graviola (2012.p.160), fruta agridoce de polpa
branca bastante consumida pelos nordestinos e,
assim como outras frutas, encontrada nas feiras de
mangaio espalhadas pelo nordeste.
Pavio de candeeiro, panela de barro
Menino vou me embora, tenho que voltar
Xaxar o meu roçado que nem boi de carro
Alpargata de arrasto não quer me levar
(SIVUCA, GADELHA, 1978)
Dando sequência aos utensílios temos o pavio
de candeeiro (CAMELO,2013. p.73). Pavio é o nome
dado ao fio colocado em candeeiros ou velas no
qual se coloca fogo. Candeeiro, por conseguinte,
é um utensílio utilizado para iluminar ambientes.
Geralmente funcionam a gás ou petróleo outro
líquido inflamável. No passado, bastante utilizado
nas zonas rurais dos estados do nordeste onde
havia frequentes faltas de luz elétrica.
A panela de barro é outro utensílio doméstico
bastante utilizado pelos nordestinos, especialmente
nos interiores. É uma panela como outra qualquer,
mas, produzida com barro, o que dá um toque
diferente nas comidas cozinhada por ela. É
também a panela mais antiga e reconhecida desde a
pré-história. No Brasil, os índios costumavam usar
a panela de barro, depois passada para o costume
dos negros escravizados.
Xaxar o meu roçado (MARCENA,2012.
p.369) é uma expressão de cunho rural e significa
“preparar a roça para a plantação”. Daí, portanto o
nome do ritmo “xaxado” que consiste numa dança
proposta em roçar, bater mansamente, os pés no
chão e forma ritmada. Portanto, “xaxar o roçado”
é preparar o solo sem auxílio de tecnologias como
o boi de carro – utilizado no transporte de cargas e
produtos agrícolas, além de auxiliar na preparação
do solo para o plantio.
Alpargata, conhecida também por “alpercata”
(MARCENA,2012. p.25), é uma sandália de couro
desenvolvida pelos cangaceiros e muito usada até
hoje. Alpargata de arrasto, então, é a sandália de
couro do povo nordestino. “De arrasto” porque
esse tipo de calçado costuma fazer barulho ao
arrastar no chão, por isso a lembrança da alpargata
ser de arrasto, ou seja, de couro. Na sequência da
música há a referência a uma festa. Para tanto, os
compositores já anunciam que as alpargatas não
querem levar o seu dono, a pessoa que canta a
música.
Porque tem um Sanfoneiro no canto da rua,
fazendo floreio pra gente dançar
Tem Zefa de Purcina fazendo renda, e o ronco
do fole sem parar
Porque tem um Sanfoneiro no canto da rua,
fazendo floreio pra gente dançar
Tem Zefa de Purcina fazendo renda, e o ronco
do fole sem parar
(SIVUCA, GADELHA, 1978)
Desta maneira, a música finda com última
estrofe apresentando uma festa dentro da feira
de mangaio; o chamado “fim de feira”. Um
sanfoneiro, homem que toca sanfona – nome dado
ao acordeon no nordeste – tocando no canto da
rua e fazendo floreio, ou seja, fazendo malabarismos
com o instrumento, fazendo movimentos musicais
que fazem todos da feira do mangaio dançar.
Mais uma lembrança dos compositores
a tradição nordestina ao ressaltar a rendeira,
representada na música por Zefa de Purcina,
personagem criada para referenciar o trabalho
manual da renda, feito com diversos tipos de fios e
malhas e também encontrado em qualquer feira de
mangaio. Por fim, ronco do fole, expressão dada para
representar o som da sanfona que possui um fole –
aparelho que serve para produzir vento.
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FONTE DESTE DOCUMENTO: Thalita Rose Tamiarana Gadelha Taveira