COMO BOLSONARO USA SUA “DESCONFIANÇA” NAS VACINAS PARA MANIPULAR OS EVANGÉLICOS.

Bolsonaro e a mulher Michelle no culto de final de ano do Planalto, em 2019.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Movimento antivacina no mundo é liderado por fundamentalistas religiosos; nos EUA, ateus são os que mais se vacinam

Durante um encontro de igrejas evangélicas na cidade goiana de Anapólis, em junho, Jair Bolsonaro fez questão de assegurar que as vacinas contra a Covid-19 são “experimentais”. “A vacina tem comprovação científica ou está em estado experimental ainda? Está experimental”, disse o presidente, desinformando mais uma vez sua audiência –a eficácia das vacinas utilizadas no Brasil foi comprovada pela própria Anvisa, um órgão federal.

Bolsonaro não se vacinou nem vai se vacinar e tem se posicionado radicalmente contra o passaporte da vacina proposto por diversos governos do mundo para controlar a pandemia. “Jamais vou exigir o passaporte da vacina de vocês”, prometeu a seus apoiadores no “cercadinho” do Palácio da Alvorada na semana passada. Ele costuma assustar as pessoas dizendo que os efeitos colaterais da vacina são “enormes” e recentemente, sem nenhuma evidência, associou a embolia pulmonar sofrida pelo deputado Hélio Lopes ao imunizante.

Quando Bolsonaro fala contra as vacinas, não se trata de desinformação, teimosia, ignorância ou de “defender a liberdade individual”, como ele diz, e sim parte de uma estratégia de manipulação de massas direcionada sobretudo aos evangélicos, a fatia da população que menos crê em vacinas

É muito estranha essa súbita desconfiança de Bolsonaro em relação às vacinas. Em 27 anos de Câmara dos Deputados, ele nunca deu uma só declaração contra os imunizantes, pelo contrário. Em 2010, quando estava sendo votada a Lei da Palmada, à qual ele ferozmente se opunha, chegou a usar as vacinas como argumento em defesa dos castigos corporais: “Se o garoto não quer tomar a vacina, o que o pai vai fazer?” Os militares brasileiros tampouco têm histórico de antivacinas: o Programa Nacional de Imunizações foi criado em plena ditadura, em 1973.

Da Revista Forum