UM TRONO EM RUÍNAS

CRUZADA INSANA

Depois que a Anvisa aprovou o uso do imunizante em crianças de 5 a 11 anos, providência que chamou de “inacreditável”, o mandatário disse que a aplicação das injeções requereria receita médica.
Queiroga determinou que a vacinação será objeto de consulta e audiência públicas até 4 de janeiro, com decisão no dia seguinte. A tentativa de sabotagem é óbvia.
Quanto mais atrasar a campanha, mais estudantes voltarão às escolas sem suas doses de proteção. Bolsonaro assume o risco de disseminar a doença entre cerca de 20,5 milhões de crianças, mais suas famílias e próximos.

Técnicos do comitê de imunização da Saúde, médicos e cientistas apoiaram a decisão da Anvisa. Agências similares nos Estados Unidos e na União Europeia aprovaram a providência em outubro e novembro, respectivamente. Os brasileiros são adeptos da imunização; levaram seus adolescentes em massa aos postos de saúde.
Como se não bastasse, Bolsonaro anunciou que pediu, “extraoficialmente”, o nome de quem aprovou a vacina para crianças, “para que todo mundo tome conhecimento [de] quem são essas pessoas e obviamente forme seu juízo”. Foi como se convocasse suas milícias para uma campanha de difamação.

Mas houve mais, como era fácil prever –uma torrente de ameaças de morte contra servidores. 
A Anvisa pediu à Polícia Federal, ao Gabinete de Segurança Institucional e à Procuradoria-Geral que investiguem esses criminosos.
O Brasil e o mundo correm o risco de uma nova onda de Covid-19, causada pela variante ômicron, de potencial nocivo ainda pouco conhecido. 
Recomenda-se prudência e disciplina para abater a epidemia ou conter seus repiques.
A doença Bolsonaro, entretanto, não tem cura.

A propaganda da morte continua, agora sob a pose farisaica de defesa do bem-estar das crianças contra efeitos adversos do imunizante. Pior, o mandatário convoca suas falanges para atacar funcionários de Estado que conseguem ainda realizar suas tarefas de modo racional.
Trata-se de aversão ao trabalho, ojeriza à razão e desprezo pela vida. 

(editorial de 24/12/2021 da Folha de S. Paulo)

Do Náufrago da Utopia