TOM CRUISE E O BOM SAMARITANO

Tom Cruise socorreu brasileira atropelada em 1996 (Alberto Pizzoli/AFP)

Por Frei Betto

Entramos na Semana Santa. Todo o mundo, o Brasil de modo especial, vive há mais de um ano em plena Sexta-Feira da Paixão: quase 3 milhões de mortos pela Covid, dos quais mais de 300 mil em nosso país.

Dói a incerteza da doença em milhões de infectados; dói nas famílias dos mortos; dói a ausência de velórios; dói nos trabalhadores da saúde que, exaustos, sabem que não podem fazer milagres na falta de insumos, remédios, oxigênio e leitos; dói no bolso dos comerciantes que veem seus negócios falidos; dói no risco cotidiano enfrentado pelas pessoas obrigadas a sair de casa para trabalhar; dói ao viajar no transporte coletivo lotado; dói na falta de crédito facilitado a quem vê o seu empreendimento fechar, e dói por não ser permanente e suficiente o auxílio emergencial a tantos que precisariam ficar em casa e, ao mesmo tempo, se alimentar, pagar aluguel, e as contas de água, luz, telefone etc.

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ARGUMENTO DE AUTORIDADE, O RECURSO DE QUEM NÃO TEM ARGUMENTOS

Todos nós, em algum ponto, sucumbimos ao argumentum ad verecundiam ou argumento de autoridade. Não é difícil, pois em nossa sociedade muitas vezes se dá mais atenção à fonte do discurso do que à sua veracidade. Achamos que se alguém “importante” disse isso, será verdade. Infelizmente, essa é uma armadilha relativamente comum na qual caímos sem perceber. Assim, acabamos aceitando ideias falsas ou incorretas sem questioná-las.

Qual é o argumento da autoridade?

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A CONSCIÊNCIA CÍNICA

Imagem de Hieronymus Bosch

Por Milton Pinheiro*

A consciência cínica sabe que deve se acomodar e permitir o caos controlado e o golpe de Bolsonaro por dentro das instituições

Todos os poderes da república sabem o que os “bolsonaros” fizeram e o que o atual presidente faz. Os chefes das instituições do Estado capitalista brasileiro têm completo conhecimento das ações do agitador fascista. Mesmo aqueles que têm algum tipo de restrição ao modelo do caos controlado que governa o Brasil, passando por muitos que se comportam como vômito leniente, até os operadores do golpe por dentro das instituições…Todos, absolutamente todos, têm conhecimento da lógica político-administrativa do atual governo.

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LEILA SLIMANI: ” QUANTO MAIS VOCÊ PROGRIDE NA HIERARQUIA SOCIAL, MAIS BRANCA VOCÊ PARECE AOS OLHOS DOS BRANCOS”

A escritora Leïla Slimani, retratada em sua casa em Paris em fevereiro.
A escritora Leïla Slimani, retratada em sua casa em Paris em fevereiro. MANUEL BRAUN

Após o sucesso de ‘Canção de Ninar’, a escritora franco-marroquina publica ‘O País dos Outros’, uma saga inspirada na história de seus avós nos tempos coloniais com a que indaga sobre a “a maldição da mestiçagem”

Após ganhar o Prêmio Goncourt com Canção de Ninar, análise sociológica do clássico da babá assassina e fenômeno internacional traduzido a 44 línguas, Leïla Slimani (Rabat, 1981) abre com Le Pays des Autres (O País dos Outros, sem tradução ao português) uma nova trilogia sobre a história de sua família. A protagonista é Mathilde, um personagem inspirado em sua avó, uma jovem alsaciana no Marrocos colonial de 1946. Slimani, que mora na França desde os 17 anos, escreve sobre o drama silencioso que conhece de primeira mão: a condição de ser outro.

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SEJA INADEQUADO, PORQUE NÃO SE ADEQUAR A UMA SOCIEDADE DOENTE É UMA VIRTUDE

Por Erick Morais

A vida contemporânea cheia de regras e adestramento fez com que houvesse uma padronização completa das pessoas, de tal maneira que todos se comportam do mesmo modo, falam das mesmas coisas, se vestem mais ou menos do mesmo jeito, possuem as mesmas ambições, compartilham dos mesmos sonhos, etc. Ou seja, as particularidades, as idiossincrasias, aquilo que os indivíduos possuem de único, inexistem diante de um mundo tão pragmático e controlado.

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MUDE!

“Mude, porque a direção é mais importante que a velocidade”

Por Clarice Lispector

MUDE,

Mas comece devagar,
Porque a direção é mais importante
Que a velocidade.


Sente-se em outra cadeira,
Do outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,


Procure andar pelo outro lado da rua.
Depois mude de caminho.
Ande por outras ruas,
Calmamente,
Observando com atenção
Os lugares por onde
Você passa.

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