SEJA INADEQUADO, PORQUE NÃO SE ADEQUAR A UMA SOCIEDADE DOENTE É UMA VIRTUDE

Por Erick Morais

A vida contemporânea cheia de regras e adestramento fez com que houvesse uma padronização completa das pessoas, de tal maneira que todos se comportam do mesmo modo, falam das mesmas coisas, se vestem mais ou menos do mesmo jeito, possuem as mesmas ambições, compartilham dos mesmos sonhos, etc. Ou seja, as particularidades, as idiossincrasias, aquilo que os indivíduos possuem de único, inexistem diante de um mundo tão pragmático e controlado.

Continue Lendo

MUDE!

“Mude, porque a direção é mais importante que a velocidade”

Por Clarice Lispector

MUDE,

Mas comece devagar,
Porque a direção é mais importante
Que a velocidade.


Sente-se em outra cadeira,
Do outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,


Procure andar pelo outro lado da rua.
Depois mude de caminho.
Ande por outras ruas,
Calmamente,
Observando com atenção
Os lugares por onde
Você passa.

Continue Lendo

“SOBREVIVER, NESTE MOMENTO, NÃO É POUCA COISA”, DIZ O PSICANALISTA CHRISTIAN DUNKER DA USP

“Na psicanálise, a gente não concorda com a ideia de que ano bom é um ano feliz em que a gente não sofreu; sofrimento faz parte da vida”, afirma Dunker – Reprodução

Por Cristiane Sampaio /Brasil de Fato

Em conversa com BdF, professor da USP reflete sobre acervos pessoais e sobre como seguir em frente para descortinar 2021

Descoberta de um novo vírus, restrições de convivência social, confinamento, solidão, autodesenvolvimento, práticas de solidariedade, descompromisso com as medidas sanitárias, apatia moral ou trabalho voluntário. Como você teceu sua jornada ao longo deste ano? E como sobreviveu a este tão singular 2020? Qual o seu acervo pessoal ao final desta travessia?  

Para o psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Christian Dunker, o saldo do ano não é homogêneo, variando conforme as condições materiais e psíquicas de cada um. E sobreviver, neste momento, “não é pouca coisa”, diz ele.   

Continue Lendo

CARTÃO DE NATAL

Que Cristo nasça em cada coração que se faz presépio (Unsplash/Annie Spratt)

Por Frei Betto

Feliz Natal a quem não planta corvos nas janelas da alma, nem embebe o coração de cicuta e ousa sair pelas ruas a transpirar bom humor.

Feliz Natal a quem cultiva ninhos de pássaros no beiral da utopia e coleciona no espírito as aquarelas do arco-íris. E a todos que trafegam pelas vias interiores e não temem as curvas abissais da oração.

Feliz Natal aos que reverenciam o silêncio como matéria-prima do amor e arrancam das cordas da dor melódicas esperanças. Também aos que se recostam em leitos de hortênsias e bordam, com os delicados fios dos sentimentos, alfombras de ternura.

Continue Lendo

“A SOCIEDADE BUSCA NO CONSUMO UMA VÁLVULA DE ESCAPE PARA PREENCHER O VAZIO DE SENTIMENTOS”

AS FACES DA SOCIEDADE LÍQUIDA

Por Douglas Henrique Reginato

O conceito de liquidez trazido por Zygmunt Bauman (Escritor e Sociólogo Polonês) no início desse século não seria tão válido se não fosse tão real e totalmente aplicável à sociedade atual em suas inúmeras áreas. Como cita o autor “A passagem da fase “sólida” da modernidade para a “líquida” – ou seja, para uma condição em que as organizações sociais (estruturas que limitam as escolhas individuais, instituições que asseguram a repetição de rotinas, padrões de comportamento aceitável) não podem mais manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam”.

É notável que o novo modelo de sociedade traga uma série de benefícios e ao mesmo tempo consequências irreparáveis. Os novos estilos de vida, tecnologias revolucionárias, relacionamentos humanos, competitividade selvagem e exposição diante de um mundo sem direção ou garantia gera um verdadeiro “Admirável Mundo Novo” onde a sociedade, o tempo e a vida são líquidos. A seguir são apresentados alguns comentários acerca das faces marcantes da sociedade atual:

Continue Lendo

POR QUE VIVEMOS NA SOCIEDADE DO CANSAÇO?

O filósofo sul-coreano Byung-chul Han

Por Cesar Gaglione /Nexo Jornal

Em 2013, uma pesquisa realizada pelo Ibope demonstrou que 98% dos brasileiros se sentem cansados mental e fisicamente. Os jovens de 20 a 29 anos representam a maior fatia dos exaustos.

A tendência aparece em outros lugares. De acordo com o Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos de 2015, 43% dos trabalhadores do país dormem menos do que o período recomendado pela Fundação Nacional do Sono, ONG americana que promove a conscientização pública da importância do sono e dos distúrbios decorrentes da falta dele.

O filósofo sul-coreano Byung-chul Han se debruçou sobre o tema da exaustão e produziu o ensaio “Sociedade do cansaço”, publicado no Brasil em formato de livro pela editora Vozes. No texto, Han argumenta que cada época possui epidemias próprias, como as doenças bacteriológicas e virais que marcaram o século 20. Para ele, as patologias neurais definem o século 21 – e todas elas surgem a partir de um denominador comum: o excesso de positividade.

Continue Lendo