A FELICIDADE DOS ANTIGOS E A INFELICIDADE DO HOMEM MODERNO

Ao contrário dos antigos, o homem moderno perdeu sua harmonia com a natureza, perdeu
a capacidade de ordenar sua vida pela razão

Por Michel Aires de Souza Dias[1] / Jornal GGN

Os antigos gregos pensaram sua existência e ordenavam sua vida a partir da ideia de Cosmo, palavra grega que significa  ordem.  O mundo era compreendido como um todo universal ordenado, possuindo uma racionalidade intrínseca à sua própria natureza. O problema ético de como devemos viver a vida era determinada por essa noção.  O conhecimento visava um aprimoramento da vida interior e deveria determinar as normas universais da própria existência. Cabia a cada qual, através da razão,  buscar as normas universais que deviriam guiar sua própria existência, propiciando o conhecimento de como enfrentar as adversidades da vida,  de como se viver melhor e de como atingir a serenidade interior. A vida dos antigos tinha uma finalidade (telos), deveria ser guiada pela ideia de natureza.

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NO MÊS DE MAIO DE 1968

Imagem: Marco Buti, Via

Por PAULO EDUARDO ARANTES*

Reflexões sobre os significados dos acontecimentos de 1968.

No Brasil

Acompanhei os acontecimentos de Maio de 1968 na condição de jovem professor de filosofia na faculdade da rua Maria Antônia. Aliás estreante, maio desabou no meu primeiro semestre de magistério. Me apanhou, portanto, de surpresa, ainda inseguro no exercício do novo ofício, morrendo de medo de não estar à altura da confiança dos meus maiores. Contestação naquele clima escolar de acatamento, nem pensar, só mesmo por inércia ou mimetismo. Aliás, contestar o quê? Mesmo as “lideranças”, como se dizia, do movimento por uma Universidade crítica, choviam um pouco no molhado.

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ARGUMENTO DE AUTORIDADE, O RECURSO DE QUEM NÃO TEM ARGUMENTOS

Todos nós, em algum ponto, sucumbimos ao argumentum ad verecundiam ou argumento de autoridade. Não é difícil, pois em nossa sociedade muitas vezes se dá mais atenção à fonte do discurso do que à sua veracidade. Achamos que se alguém “importante” disse isso, será verdade. Infelizmente, essa é uma armadilha relativamente comum na qual caímos sem perceber. Assim, acabamos aceitando ideias falsas ou incorretas sem questioná-las.

Qual é o argumento da autoridade?

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DO CULTO AO EU À PASSIVIDADE SOCIAL

Imagem: Hariton Pushwagner, em seu livro “Soft City’

Por Rosangela Ribeiro e Manuella Soares entrevistando Nora Merlin

Psicanalista argentina investiga causas subjetivas da indiferença diante do ataque aos direitos. Para ela, neoliberalismo propõe trocar ação política por liberdade individual inatingível. E oferece, diante do fracasso, angústia, culpa e medo

I – Vida e arte

Em qual encruzilhada estamos? O que nos pode salvar ou destruir por completo? Essas são algumas indagações que nos levaram a pesquisar o quanto o neoliberalismo não é apenas um modelo econômico, mas uma prisão de subjetividades. Por que repetimos o que não é bom para nós e defendemos o que nos prejudica?

O cineasta inglês Ken Loach, tão perspicaz em “auscultar” a sociedade capitalista, parodia os tempos atuais, magistralmente, em seu mais recente trabalho Sorry we missed you. Estamos lá, na aflição do ex-operário da construção civil, desalentado pelo desemprego, buscando uma salvação de vida para ele e sua família. É emblemático o diálogo que inicia a película entre Ricky Turner, a voz de quem perdeu a credulidade no sistema, e Gavin Maloney, a fala de quem aderiu à lógica neoliberal do “empreendedor de si” prometida por uma plataforma de entregas.

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POR QUE VIVEMOS NA SOCIEDADE DO CANSAÇO?

O filósofo sul-coreano Byung-chul Han

Por Cesar Gaglione /Nexo Jornal

Em 2013, uma pesquisa realizada pelo Ibope demonstrou que 98% dos brasileiros se sentem cansados mental e fisicamente. Os jovens de 20 a 29 anos representam a maior fatia dos exaustos.

A tendência aparece em outros lugares. De acordo com o Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos de 2015, 43% dos trabalhadores do país dormem menos do que o período recomendado pela Fundação Nacional do Sono, ONG americana que promove a conscientização pública da importância do sono e dos distúrbios decorrentes da falta dele.

O filósofo sul-coreano Byung-chul Han se debruçou sobre o tema da exaustão e produziu o ensaio “Sociedade do cansaço”, publicado no Brasil em formato de livro pela editora Vozes. No texto, Han argumenta que cada época possui epidemias próprias, como as doenças bacteriológicas e virais que marcaram o século 20. Para ele, as patologias neurais definem o século 21 – e todas elas surgem a partir de um denominador comum: o excesso de positividade.

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SILVIO ALMEIDA: “QUEM QUER CIVILIZAR O BRASIL NÃO PODE TEMER O PODER. TEMOS DE NOS LIVRAR DESSA ALMA DE SENHOR DE ESCRAVO”

O jurista Silvio Almeida.CHRISTIAN PARENTE/DIVULGAÇÃO

Advogado e filósofo opina que a alternativa ao bolsonarismo precisa ter a vida como valor. Defende que sentença da juíza que cita “raça” para justificar condenação de réu negro deve ser anulada

Por Felipe Betim / El Pais

Silvio Luiz de Almeida (São Paulo, 1976) é um dos principais pensadores brasileiros da atualidade. Além de filósofo, advogado tributarista e professor universitário, com especializações em Direito Político e Econômico e Teoria Geral do Direito, Almeida estuda as relações raciais no Brasil e publicou, no ano passado, o livro Racismo estrutural (Editora Polén). Em entrevista ao EL PAÍS, opina que o presidente Jair Bolsonaro é um “sintoma da derrota do Brasil”, um país que ficou “apático em torno de 100.000 mortes” pelo novo coronavírus porque “já se acostumou com a morte, principalmente de trabalhadores e de pessoas negras”.

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