POR UMA FELICIDADE VADIA

Associado ao êxito individual, o ser feliz tornou-se obrigação tormentosa. Pode ser,
porém, o desfrute de uma vida sem medos; os convívios que permitem encarar o
incerto e a tristeza; e uma ética que, prezando o cuidado, desafia os moralismos

Por Antoni Aguiló, no Público | Tradução: Simone Paz

Desde 2013, a ONU reconhece o dia 20 de março como o Dia Internacional da Felicidade. Hoje em dia, a felicidade parece um significante vazio, explorado em excesso, até a exaustão. Abraça tantos significados diferentes, que praticamente cabe tudo nela: desde o consumo de Viagra, até os livros de Paulo Coelho.

Apesar da banalização do termo, ao longo das últimas décadas o neoliberalismo impôs a crença de que a felicidade era fruto do esforço e do talento individual, prêmio que ganhamos por sermos produtivos e competitivos. É o típico discurso da meritocracia liberal, onde cada um chega onde quer com base em seu próprio valor. Para isso, a meritocracia nos introduz a necessidade contínua do “sempre mais”: treinar mais, trabalhar mais, demonstrar mais, ter mais seguidores nas redes sociais, etc. A felicidade torna-se prisioneira entre as frias paredes do cálculo e da eficiência.

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DO CULTO AO EU À PASSIVIDADE SOCIAL

Imagem: Hariton Pushwagner, em seu livro “Soft City’

Por Rosangela Ribeiro e Manuella Soares entrevistando Nora Merlin

Psicanalista argentina investiga causas subjetivas da indiferença diante do ataque aos direitos. Para ela, neoliberalismo propõe trocar ação política por liberdade individual inatingível. E oferece, diante do fracasso, angústia, culpa e medo

I – Vida e arte

Em qual encruzilhada estamos? O que nos pode salvar ou destruir por completo? Essas são algumas indagações que nos levaram a pesquisar o quanto o neoliberalismo não é apenas um modelo econômico, mas uma prisão de subjetividades. Por que repetimos o que não é bom para nós e defendemos o que nos prejudica?

O cineasta inglês Ken Loach, tão perspicaz em “auscultar” a sociedade capitalista, parodia os tempos atuais, magistralmente, em seu mais recente trabalho Sorry we missed you. Estamos lá, na aflição do ex-operário da construção civil, desalentado pelo desemprego, buscando uma salvação de vida para ele e sua família. É emblemático o diálogo que inicia a película entre Ricky Turner, a voz de quem perdeu a credulidade no sistema, e Gavin Maloney, a fala de quem aderiu à lógica neoliberal do “empreendedor de si” prometida por uma plataforma de entregas.

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“A MERITOCRIA É UMA ILUSÃO”, DIZ EX-EMPREGADA DOMÉSTICA QUE SE TORNOU JUÍZA

Foto: Divulgação

Do Brasil 247

Antônia Marina Faleiros é uma das poucas mulheres autodeclaradas negras que compõem o quadro de juízes no Brasil. Conheça sua história.

No Brasil, há pessoas que morrem sem nunca terem tido um registro de nascimento. Antônia Marina Faleiros, 57 anos, escapou de ser uma delas, mas vê exemplos todos os dias. Conviveu com essa realidade quando trabalhava em um canavial, aos 12 anos, em Minas Gerais, e também ao se tornar juíza em comarcas do interior da Bahia, aos 40.

“Como juíza, reconheci um misto de miséria e exclusão que eu já tinha vivido. Algumas pessoas passam toda uma vida sem acesso à educação e saúde, muitas delas nunca tiveram um documento para reafirmar sua existência. Não julgo papel, eu julgo gente como eu”, relata.

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“QUEM FAZ SUCESSO TENDE A ACHAR QUE É GRAÇAS A SI MESMO”, questiona Michael J. Sandel

O filósofo Michael Sandel, professor de Harvard, no parque Larz Anderson em Brookline (Massachusetts), no domingo passado (6 de setembro).ADAM GLANZMAN

Professor de Harvard, um astro do pensamento, dirige seu novo livro aos gurus progressistas. Acusa-os de abraçarem a meritocracia, que levou a um legítimo ressentimento das classes trabalhadoras

Por Pablo Guimón

Chove a cântaros em Boston, e o filósofo já tinha advertido que o temporal obrigaria a remarcar a entrevista a ser feita no jardim da sua casa, evitando os espaços fechados por prevenção contra o coronavírus. Como as manhãs do professor são ocupadas pelas aulas virtuais, a tarefa de buscar um lugar alternativo, que seja aberto, porém coberto, recai sobre o jornalista, que não tem ideia melhor do que convocar Michael J. Sandel (Minneapolis, 1953) à desenxabida bancada de concreto sob a imponente rampa que Le Corbusier concebeu para o único edifício que desenhou na América do Norte, ocupado pelo Centro Carpenter para as Artes Visuais da Universidade Harvard. Sandel ― famoso por seu estilo socrático de questionar as ideias pré-concebidas de suas audiências, que incluem o restrito corpo discente desta universidade, mas também milhões de espectadores que assistem às suas aulas magnas sobre justiça no YouTubeContinue Lendo

POR QUE A IDEIA DE MERITOCRACIA PRIVILEGIA QUEM JÁ É RICO?

Postado por Blog do Valentin

O vocábulo “meritocracia”, que na perspectiva proposta por Michael Young retratava um mundo de profundas injustiças, foi apropriado e transfigurado pela direita para descrever a possibilidade de ascensão social e econômica, em decorrência do esforço individual. E é nesse último e deturpado sentido que a palavra é empregada no discurso neoliberal.

Por Carlos Eduardo Araujo(*) / JUSTIFICANDO (Mentes inquietas pensam direiro)

Por que, parcelas consideráveis da sociedade brasileira, situadas desde os integrantes da classe média até aqueles que ocupam o topo da pirâmide social, se colocam contrárias à efetivação de políticas públicas sociais, tais como bolsa-família, cotas sociais e raciais, programa de renda mínima, minha casa, minha vida?

Por que a simples menção à expressão “justiça social” as incomoda tanto? Por que tal expressão gera tanta desconfiança, a ponto de fazê-las desacreditá-la, veementemente?

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QUANDO A MERITOCRACIA SE TORNA A IDEOLOGIA DA DESIGUALDADE, Por Jailson de Souza e Silva

Postado por Valentin Ferreira

Por Jailson de Souza e Silva (1) / No Observatório e Favelas / Via Jornal GGN

A revolução francesa realizou um grande feito histórico quando permitiu a superação do princípio feudal de que as pessoas² seriam naturalmente desiguais, em decorrência de sua origem social. A ideia de que todas são iguais – mesmo que uma igualdade restrita à lei e ao poder do Estado – representou uma verdadeira revolução do ponto de vista conceitual, jurídico e social.
Nasceu, então, o discurso do mérito pessoal como um elemento justificatório das condições sociais alcançadas pelos sujeitos, reconhecidos em suas diferenças a partir da biologia, do ethos trabalhador e mesmo da moral. Desde então, o discurso meritocrático se tornou a principal forma de legitimação das desigualdades no mundo social ocidental. E o tipo ideal de herói capitalista passou a ser o “self made man” – na típica linguagem sexista, seria o homem que faz a si mesmo.
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