SOBRE NOSSA FINITUDE, AS AMEAÇAS E O DINHEIRO

As bolhas de conforto e negação estouraram. A vida não está protegida por cápsulas: a casa, o carro, o shopping. Espalham-se riscos: mudanças climáticas, fome, bactérias resistentes. Enfrentá-las exige desafiar as cegueiras do capital

Por George Monbiot /Tradução Antonio Martins / Imagem: Alessandro Gottardo

Vivemos por muito tempo numa bolha de falso conforto e negação. Nos países ricos, os cidadãos começaram a acreditar que haviam transcendido o mundo material. A riqueza acumulada – com frequência, às custas de outros – blindou-os da realidade. Viver por trás de telas, passando entre cápsulas – as casas, os carros, os escritórios e os shoppings – persuadiu-os de que as contingências haviam recuado, de que eles próprios haviam alcançado o ponto almejado por todas as civilizações: o isolamento dos riscos naturais.

Agora, a membrana se rompeu, e nos encontramos nus e ultrajados. A biologia, que pensávamos ter banido, irrompe em nossas vidas. A tentação, quando a pandemia tiver passado, será encontrar uma nova bolha. Não podemos sucumbir a isso. De agora em diante, deveríamos expor nossa mente às dolorosas realidades que negamos por tempo demais.

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O MEDO DE SER LIVRE PROVOCA O ORGULHO EM SER ESCRAVO

Postado por Valentin Ferreira

Por Erick Morais / do Pensar Contemporâneo

Há no homem um desejo imenso pela liberdade, mas um medo ainda maior de vivê-la. Algo parecido disse Dostoiévski, ou talvez eu esteja dizendo algo parecido com o dito pelo escritor russo.

No entanto, como seres significantes que somos, analisamos as coisas sempre a partir de uma determinada perspectiva e, assim, passamos a atribuir-lhes valor. Dessa maneira, até conceitos completamente opostos, como liberdade e escravidão, podem se confundir ou de acordo com o prisma de quem analisa, tornarem-se expressões sinônimas, como acontece no mundo distópico de George Orwell, 1984, em que um dos lemas do partido – “Escravidão é Liberdade” – é repetido à exaustão.

Não à toa, as boas distopias têm como grande valor predizer o futuro. E em todas elas – 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Laranja Mecânica – há um ponto em comum: a liberdade dos indivíduos é tolhida e, consequentemente, convertida em escravidão. No entanto, através de mecanismos sócio-políticos a escravidão é ressignificada como liberdade, de modo que mesmo tendo a sua liberdade cerceada, os indivíduos entendem gozarem plenamente desta.

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ADMIRÁVEL ESCRAVO NOVO

Postado por Valentin Ferreira / Por Érick Morais

No “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, encontramos uma sociedade extremamente desenvolvida tecnologicamente, em que o progresso atingiu os níveis máximos de “evolução” esboçados e sonhados no século XIX. Em contrapartida ao desenvolvimento técnico, não se percebe necessariamente o mesmo no sentido humano, uma vez que há controles sociais “invisíveis”, construindo muros nas mentes humanas, alienação e condicionamento pelo excesso de “informação” e “divertimento”, uso de drogas para manter os níveis de felicidade e satisfação sempre altos (o soma), e segregação social a partir de determinismos biológicos, algo que encontramos parecido no filme “Gattaca – Experiência Genética”.

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