ESCRAVIDÃO, A ORIGEM DO RACISMO

Negro castiga negro: aberração da herança de ódio deixada pela colonização portuguesa

Por Donatella Di Cesare*

Hoje não se pode ignorar a dupla condenação que atingiu o racismo: a da ética, que em Nuremberg pronunciou um juízo inapelável, e a da ciência, que indicou que a “raça” nada mais é do que uma invenção. O resultado evidente dessa dupla condenação está na transformação em tabu da palavra “raça” que, tornando-se suspeita, é sistematicamente evitada e só aparece entre aspas, para se tomar distância dela. Não é por acaso que muito poucos admitem ser “racistas”.

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NÃO SÓ OMO LAVA MAIS BRANCO

O que repugno no discurso de Fernández é essa empáfia de achar que descender de europeu é prova de requinte humano. Na foto, o primeiro ministro espanhol, Pedro Sánchez, e o presidente argentino, Alberto Fernández. (Casa Rosada)

Por Frei Betto

Também o diversionismo ideológico. Alberto Fernández, presidente da Argentina, declarou em diálogo com Pedro Sánchez, premiê da Espanha: “os mexicanos saíram dos índios; os brasileiros saíram da selva; mas nós, argentinos, chegamos dos barcos – barcos que vinham da Europa”.

Há brasileiros que se sentiram ofendidos. Não é o meu caso. Fernández tem razão, viemos da selva e da senzala. Foi o que constatou o Projeto Genoma 2000 ao pesquisar o DNA predominante dos brasileiros. Sinto-me honrado ao saber que descendo de duas etnias oprimidas por nossos colonizadores. E altamente civilizadas.

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LEILA SLIMANI: ” QUANTO MAIS VOCÊ PROGRIDE NA HIERARQUIA SOCIAL, MAIS BRANCA VOCÊ PARECE AOS OLHOS DOS BRANCOS”

A escritora Leïla Slimani, retratada em sua casa em Paris em fevereiro.
A escritora Leïla Slimani, retratada em sua casa em Paris em fevereiro. MANUEL BRAUN

Após o sucesso de ‘Canção de Ninar’, a escritora franco-marroquina publica ‘O País dos Outros’, uma saga inspirada na história de seus avós nos tempos coloniais com a que indaga sobre a “a maldição da mestiçagem”

Após ganhar o Prêmio Goncourt com Canção de Ninar, análise sociológica do clássico da babá assassina e fenômeno internacional traduzido a 44 línguas, Leïla Slimani (Rabat, 1981) abre com Le Pays des Autres (O País dos Outros, sem tradução ao português) uma nova trilogia sobre a história de sua família. A protagonista é Mathilde, um personagem inspirado em sua avó, uma jovem alsaciana no Marrocos colonial de 1946. Slimani, que mora na França desde os 17 anos, escreve sobre o drama silencioso que conhece de primeira mão: a condição de ser outro.

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O BRASIL ESTÁ COM ÓDIO DO BRASIL OU KAROL CONKÁ NÃO É ODETE ROITMAN

Karol Conká: rapper foi eliminada do reality global com 99,17% dos votos do público (Foto: Divulgação/ TV Globo)

Por Ivana Bentes

Sempre existiu uma cultura e economia do ódio no Brasil, aliás, faz parte da nossa história dos assujeitamentos, da história da escravidão e da estrutura patriarcal essa construção de inimigos que são desumanizados e demonizados – o que permite odiá-los sem culpa.

Podemos dizer que o ódio virou um modulador de relações em um cenário caótico e incerto, em que rivalidades e disputas de todo tipo se sobrepõem ao que seria uma luta coletiva por direitos.

No Brasil, vivemos uma espantosa ascensão de discursos de ódio contra direitos e conquistas recém adquiridos, como se direitos fossem privilégios reversos. Ódio aos negros “privilegiados” pelas cotas raciais nas universidades, ódio aos pobres “privilegiados” pelo Bolsa Família, ódio às mulheres “privilegiadas” por serem protegidas por lei contra a violência doméstica e familiar, ódio renovado aos grupos LGBTQI+  pela criminalização da LGBTfobia.

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O AVANÇO DA PRESENÇA DE MULHERES E NEGROS NAS CÂMARAS MUNICIPAIS E PREFEITURAS

Fotomontagem de candidatas a vereadora em São Paulo; número de mulheres negras candidatas à Câmara Municipal da capital paulista quase dobrou em 2020 – Rubens cavallari e Ronny Santos/ Folhapress

Da Folha S. Paulo

Apesar do crescimento, o resultado ainda está bem distante de refletir a divisão entre negros e brancos na população brasileira —56% são pretos e pardos— e entre os próprios candidatos lançados —50% foram negros, 48%, brancos.

Já em relação às mulheres, o avanço foi mais tímido no primeiro turno. Elas passaram de 11,7% do contingente de prefeitos eleitos em 2016 para 12,1%.

Um dado significativo, porém, mostra que cresceu de forma mais expressiva a presença tanto de mulheres como de negros nas disputas de segundo turno, ou seja, das maiores e mais importantes cidades do país.

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