VIVER FORA DA ENGRENAGEM

Por Mazé Leite/ O. Palavras

Que preguiça do capitalismo! – pensei de repente, enquanto refletia sobre vírus e fascismos. Semanas depois, decidia, com mais gente que já não suporta individualismo, competição e vidas sem sentido, participar da criação de uma comunidade no campo

Era dia 30 de junho de 2020 e eu estava na janela do nono andar do meu apartamento, ouvindo a TV informar que 1.280 pessoas já tinham sido mortas pela Covid-19 em nosso país. Estávamos entrando no quinto mês da pandemia no Brasil e dois cientistas – que acompanhei atentamente nos meses da primeira onda – garantiam que mais mortes viriam pela frente, muitas. Oitocentas mil, um milhão, talvez mais, talvez pouco menos. Olhei pra dentro de casa, era seguro meu pedaço de mundo, minhas quatro paredes. Olhar para fora era ver o perigo lá fora, rondando: um desgraçado ser microscópico que de tão pequeno podia entrar goela abaixo, nariz a dentro e ir invadindo pulmões e sistemas vitais. Travei a respiração, fechei a janela, sentei no sofá, voltei a respirar. Desliguei a televisão e fui pintar meu medo, numa tela que já havia sido iniciada.

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ENSINE AS CRIANÇAS A PENSAR, NÃO O QUE PENSAR.

Um professor sufi tinha o hábito de contar uma parábola ao final de cada aula, mas os alunos nem sempre entendiam a mensagem dela.

– Professor – um de seus alunos disse desafiadoramente um dia – você sempre nos conta uma história, mas nunca explica seu significado mais profundo.

– Peço desculpas por ter realizado essas ações – o professor pediu desculpas – me permita reparar o meu erro, vou lhe oferecer meu delicioso pêssego.

– Obrigado professor.

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FALAR SOZINHO EM VOZ ALTA: UM HÁBITO TERAPÊUTICO

Foto : reprodução

Falar em voz alta consigo mesmo parece loucura, assim como ter um diálogo interno consigo mesmo para aliviar sua tristeza e preocupações. Na verdade, são hábitos muito terapêuticos, porque a comunicação consigo mesmo é vital, catártica e emocionalmente necessária para satisfazer as próprias necessidades.

Aldous Huxley disse que existe apenas uma pequena parte do universo que podemos conhecer e melhorar, algo que nos pertence: nós mesmos. No entanto, por mais curioso que pareça, nem sempre nos damos a atenção que merecemos. Abandonamo-nos como quem esquece o seu diário pessoal na gaveta, como quem deixa as chaves da casa na mala dos outros .

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O SILÊNCIO QUE NOS CURA

O silêncio está se revelando um antídoto fundamental de prevenção, por exemplo, em distúrbios mentais como a depressão ou na doença de Alzheimer

Por Juan Arias

Neurocientistas, estudiosos dos mecanismos cerebrais, estão descobrindo a dimensão terapêutica do silêncio. Dizem que, em contraposição ao ruído, o silêncio está se revelando um antídoto fundamental de prevenção, por exemplo, em distúrbios mentais como a depressão ou na doença de Alzheimer. E no bem-estar geral do organismo, a começar com um sono melhor e mais profundo.

E esses mesmos especialistas na dinâmica do cérebro e da memória alertam, por sua vez, para a falta de espaços de silêncio em nossa civilização do ruído, à qual se acrescentou o estrondo das redes sociais. O silêncio hoje se esconde, envergonhado, nos nichos dos que estão descobrindo suas vantagens para o corpo e para a alma.

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O CORINGA QUE HABITA EM CADA UM DE NÓS

Em um país dominado pelo ódio disseminado desde 2013 por meios de comunicação e onde a pobreza aumenta nos últimos anos, comportamentos agressivos comprovam que Joker é uma metáfora para nossos dias

Por Armando Januário (*) / Carta Maior

Em menos de uma semana, assisti Joker (Coringa) duas vezes. Nesse período, vivi situações que considero ligadas ao filme. Sinto necessidade de descrevê-las, e, a partir de uma análise, refletir sobre nossa sociedade.

Fui a uma pequena loja trocar a pilha do meu velho relógio de bolso, estilo século XIX, e perguntei por um dos funcionários, por quem tenho estima. Informado pelo colega dele acerca do seu estado de saúde – ele vem enfrentando o alcoolismo – mencionei como a psicologia é útil em ajudar pessoas com essa drogadição. Sem que eu percebesse, o funcionário adentrou o espaço da loja e me disse, visivelmente alcoolizado: “você é psicólogo p… nenhuma!” [sic]

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