JESUS VOLTOU; DEU RUIM

Ilustração de Adams Carvalho para a coluna de Antonio Prata – Adams Carvalho

Quando estava a pregar do alto do Masp, os fariseus enfim se encresparam

Por Antonio Prata

Eis que, conforme amplamente anunciado, Jesus voltou. Não apareceu em Nova York ou Paris, no Vaticano ou Aparecida, nem mesmo na Judeia, Galileia ou Samaria. O filho de Deus reencarnou dentro de uma caçamba, às 14:37 de uma quarta-feira, atrás da Estação da Luz.

Do alto dos entulhos, pôs-se a falar e a cuidar dos enfermos e a acalmar os aflitos; a arrancá-los do vício e da solidão; e o vinho transformou em água e as pedras transformou em pão; e logo viram os que ali estavam que se tratava do filho de Deus; e a eles, ouvindo as boas novas, vieram se juntar muitos; e foi o fim de suas tribulações.

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JESSÉ SOUZA: É PRECISO EXPLICAR O BRASIL DESDE O ANO ZERO

O sociólogo Jessé Souza, autor de ‘A elite do atraso’, lançado pela editora Leya (Divulgação)

Por Amanda Massuela /Revista Cult

Em A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato, Jessé Souza quer fazer o que, em sua opinião, nenhum intelectual da esquerda jamais fez: explicar o Brasil desde o ano zero. Isso porque se ideias antigas nos legaram o tema da corrupção como grande problema nacional – conforme defende no livro -, só mesmo novas concepções sobre o país e seu povo poderiam explicar, de uma vez por todas, que as raízes da desigualdade brasileira não estão na herança de um Estado corrupto, mas na escravidão.

Para tanto, o sociólogo confronta uma das principais obras do pensamento social brasileiro, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda – responsável por utilizar pela primeira vez a ideia de patrimonialismo para definir a política nacional. Jessé compreende que o conceito – segundo o qual o Estado brasileiro seria uma extensão do “homem cordial” que não vê distinções entre público e privado – serve para legitimar interesses econômicos de uma elite que manda no mercado, este sim a real fonte de corrupção e poder.

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UMA SOCIEDADE DOENTE. E NÃO É DE HOJE

Richard Kozul-Wright, da Unctad, uma agência do ONU para o comercio e desenvolvimento

A TEMPESTADE COMPLETA / Richard Kozul-Wright

Preferi intitular a atual tempestade de completa, ao invés de perfeita, por considerar impróprio atribuir-se perfeição (mesmo negativa) a uma tragédia.
Vivemos uma tragédia mais econômica do que epidêmica, e o mais grave é que quem paga o ônus dessa situação são os mais pobres, ainda que a pandemia não exclua os ricos da contaminação virótica. Nisso ela não é seletiva.
À crise econômica mundial que vinha sendo anunciada para 2020 por organismos capitalistas internacionais como a Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico e o Fundo Monetário Internacional, se juntou a paralisia das transações comerciais internacionais causada pela pandemia, agravando o quadro de recessão capitalista de modo acentuado.

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OS BRIOCHES DE MARIA ANTONIETA NÃO SAÍRAM BARATOS!

Por Valentin Ferreira

O ódio é burro, diz a jornalista e escritora Eliane Brum.

Burro e cego, diriam outros. O fato é que burro ou cego, o ódio dividiu o povo brasileiro, alimentado por uma mídia que bateu dia e noite para enfiar na cabeça de muita gente a matéria prima: preconceito e discriminação contra um partido e seu governo encarnados na sua figura principal, o ex-presidente Lula.

O modesto ensaio do breve governo trabalhista para tornar a vida dos brasileiros menos desigual, foi suficiente para a elite mais atrasada do mundo, arquitetar e levar a cabo um golpe fajuto cujo objetivo era e é extirpar qualquer vestígio deste ensaio que levou milhões brasileiros, tidos de “segunda classe”  a experimentar, com justo direito, um pouco de dignidade e esperança

Absurdo para um país com tanta riqueza? Não. Mas ainda é latente a herança escravocrata encalacrada no sistema político e econômico desta terra, onde uma minoria possui riqueza maior que a grande maioria.

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