PELA GRAÇA DE DEUS

Por MARILENA CHAUI*

Desde a Idade Média até a Revolução Francesa, um homem se tornava rei por meio de uma cerimônia religiosa na qual era ungido e consagrado pelo papa. A cerimônia possuía quatro funções principais: em primeiro lugar, afirmar que rei é escolhido por uma graça divina, sendo rei pela graça de Deus, devendo representa-lo na Terra (ou seja, não representa os súditos, mas Deus); em segundo, que o rei é divinizado, passando a ter, além de seu corpo humano mortal, um corpo místico imortal, seu corpo político; em terceiro, que o rei é Pai da Justiça, isto é, sua vontade é lei (ou como diz o adágio: o que apraz ao rei tem força de lei); em quarto, que é Marido da Terra, isto é, o reino é seu patrimônio pessoal para fazer dele e nele o que quiser.

No dia 6 de janeiro de 2019 (ou seja, no Dia de Reis do calendário cristão), na Igreja Universal do Reino de Deus, o pastor Edir Macedo ungiu e consagrou o recém-empossado presidente da república, Jair Messias Bolsonaro, declarando que este foi escolhido por Deus para governar o Brasil. 

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NO MÊS DE MAIO DE 1968

Imagem: Marco Buti, Via

Por PAULO EDUARDO ARANTES*

Reflexões sobre os significados dos acontecimentos de 1968.

No Brasil

Acompanhei os acontecimentos de Maio de 1968 na condição de jovem professor de filosofia na faculdade da rua Maria Antônia. Aliás estreante, maio desabou no meu primeiro semestre de magistério. Me apanhou, portanto, de surpresa, ainda inseguro no exercício do novo ofício, morrendo de medo de não estar à altura da confiança dos meus maiores. Contestação naquele clima escolar de acatamento, nem pensar, só mesmo por inércia ou mimetismo. Aliás, contestar o quê? Mesmo as “lideranças”, como se dizia, do movimento por uma Universidade crítica, choviam um pouco no molhado.

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DO CULTO AO EU À PASSIVIDADE SOCIAL

Imagem: Hariton Pushwagner, em seu livro “Soft City’

Por Rosangela Ribeiro e Manuella Soares entrevistando Nora Merlin

Psicanalista argentina investiga causas subjetivas da indiferença diante do ataque aos direitos. Para ela, neoliberalismo propõe trocar ação política por liberdade individual inatingível. E oferece, diante do fracasso, angústia, culpa e medo

I – Vida e arte

Em qual encruzilhada estamos? O que nos pode salvar ou destruir por completo? Essas são algumas indagações que nos levaram a pesquisar o quanto o neoliberalismo não é apenas um modelo econômico, mas uma prisão de subjetividades. Por que repetimos o que não é bom para nós e defendemos o que nos prejudica?

O cineasta inglês Ken Loach, tão perspicaz em “auscultar” a sociedade capitalista, parodia os tempos atuais, magistralmente, em seu mais recente trabalho Sorry we missed you. Estamos lá, na aflição do ex-operário da construção civil, desalentado pelo desemprego, buscando uma salvação de vida para ele e sua família. É emblemático o diálogo que inicia a película entre Ricky Turner, a voz de quem perdeu a credulidade no sistema, e Gavin Maloney, a fala de quem aderiu à lógica neoliberal do “empreendedor de si” prometida por uma plataforma de entregas.

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A PORÇÃO PERVERSA DA ALMA DO POVO

Por Pepe Damasco

As pessoas estão perdendo filhos, pais, mães, avós, tios, primos e amigos, vítimas de mortes evitáveis em muitos casos, se não estivéssemos sob um governo que cultua a morte.

Mas, estranhamente, a defesa do bem mais precioso de qualquer ser humano, a vida, não é motivo suficiente para uma revolta da vacina às avessas. E 200 mil mortos são três Maracanãs lotados.

Essa tragédia sem precedentes na história não é suficiente para que os brasileiros e brasileiras cerquem o Palácio do Planalto, pelo menos virtualmente , e exijam vacina imediatamente, além da saída do genocida que ocupa a cadeira presidencial.

Desnecessário entrar em detalhes acerca do papel nefasto da longa dominação de 520 anos da Casa Grande para o baixo nível de consciência política da nossa gente.

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“A SOCIEDADE BUSCA NO CONSUMO UMA VÁLVULA DE ESCAPE PARA PREENCHER O VAZIO DE SENTIMENTOS”

AS FACES DA SOCIEDADE LÍQUIDA

Por Douglas Henrique Reginato

O conceito de liquidez trazido por Zygmunt Bauman (Escritor e Sociólogo Polonês) no início desse século não seria tão válido se não fosse tão real e totalmente aplicável à sociedade atual em suas inúmeras áreas. Como cita o autor “A passagem da fase “sólida” da modernidade para a “líquida” – ou seja, para uma condição em que as organizações sociais (estruturas que limitam as escolhas individuais, instituições que asseguram a repetição de rotinas, padrões de comportamento aceitável) não podem mais manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam”.

É notável que o novo modelo de sociedade traga uma série de benefícios e ao mesmo tempo consequências irreparáveis. Os novos estilos de vida, tecnologias revolucionárias, relacionamentos humanos, competitividade selvagem e exposição diante de um mundo sem direção ou garantia gera um verdadeiro “Admirável Mundo Novo” onde a sociedade, o tempo e a vida são líquidos. A seguir são apresentados alguns comentários acerca das faces marcantes da sociedade atual:

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